Entrevista com Eric Hobsbawm: Trocando mitos por
história
Eric Hobsbawm é um historiador merecedor de todo o respeito. Num tempo
em que a atividade central da grande maioria dos historiadores burgueses
consiste na reescrita da história de acordo com as conveniências da ideologia
dominante, a sua fidelidade à matriz marxista na investigação e no método serve
de exemplo, independentemente das discordâncias que este ou aquele aspecto da
sua obra suscitem.
Discordâncias que ele próprio assume frontalmente: “O que busco é o
entendimento da história, e não concordância, aprovação ou comiseração”. Esta
interessante entrevista é um exemplo da importância da reflexão de alguém que
conta 94 anos, ou seja, de alguém que nasceu no ano da grande revolução
socialista de outubro.
Estadão: No livro Globalização, Democracia e Terrorismo,
de 2007, o senhor passa para os leitores certo pessimismo ao lhes colocar uma
perspectiva crucial e ao mesmo tempo desconfortante: ''Não sabemos para onde
estamos indo'', diz, referindo-se aos rumos mundiais. Olhando as últimas
décadas pelo retrovisor da história, esse sentimento parece ter se
intensificado. Em que outros momentos a humanidade viveu períodos marcados por
essa mesma sensação de falta de rumos?
Eric Hobsbawm: Embora existam diferenças entre os países, e também
entre as gerações, sobre a percepção do futuro – por exemplo, hoje há
visões mais otimistas na China ou no Brasil do que em países da União Europeia
e nos Estados Unidos –, ainda assim acredito que, ao pensar seriamente na
situação mundial, muita gente experimente esse pessimismo ao qual você se
refere. Porque de fato atravessamos um tempo de rápidas transformações e não
sabemos para onde estamos indo, mas isso não constitui um elemento novo em
tempos críticos. Tempos que nos remetem ao mundo em ruínas depois de 1914, ou
mesmo a vários lugares daquela Europa entre duas grandes guerras ou na
expectativa de uma terceira.
Aqueles anos durante e após a 2ª Guerra foram catastróficos, ali ninguém
poderia prever que formato o futuro teria ou mesmo se haveria algum futuro.
Cruzamos também os anos da Guerra Fria, sempre assustadores pela possibilidade
de uma guerra nuclear. E, mais recentemente, notamos a mesma sensação de desorientação
ao vermos como os Estados Unidos mergulharam numa crise econômica que até
parece ser o breakdown do capitalismo liberal.
Estadão: Nações saíram empobrecidas, arruinadas mesmo, das
guerras mundiais, mas é adequado pensar que havia naqueles escombros o desenho
de um futuro?
Eric Hobsbawm: Sim. Se de um lado o futuro nos era desconhecido e
cada vez mais inesperado, havia por outro lado uma ideia mais nítida sobre as
opções que se apresentavam. No entreguerras, a escolha principal de um modelo
se dava entre o capitalismo reformado e o socialismo com forte planejamento
econômico – supremacia de mercado sem controle era algo impensável. Havia
ainda a opção entre uma democracia liberal, o fascismo ultranacionalista e o
comunismo.
Depois de 1945, o mundo claramente se dividiu numa zona de democracia liberal e
bem-estar social a partir de um capitalismo reformado, sob a égide dos EUA, e
uma zona sob orientação comunista. E havia também uma zona de emancipação de
colônias, que era algo indefinido e preocupante. Mas veja que os países
poderiam encontrar modelos de desenvolvimento importados do Ocidente, do Leste
e até mesmo resultante da combinação dos dois. Hoje esses marcos sinalizadores
desapareceram e os "pilotos" que guiariam nossos destinos, também.
Estadão: Como o senhor avalia o poder das imagens de destruição
nos ataques do 11/9 a Nova York, tão repetidas nos últimos dias? Tornaram-se o
símbolo de uma guinada histórica, apontando novas relações entre Ocidente e
Oriente? Por que imagens do cenário de morte de Bin Laden surtiram menos
impacto?
Eric Hobsbawm: A queda das torres do World Trade Center foi
certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história,
inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios
do planeta. Nunca houve algo assim. E sendo imagens tão dramáticas, não
surpreende que ainda causem forte impressão e tenham se convertido em ícones.
Agora, elas representam uma guinada histórica? Não tenho dúvida de que os
Estados Unidos tratam o 11/9 dessa forma, como um turning point, mas não vejo
as coisas desse modo. A não ser pelo fato de que o ataque deu ao governo
norte-americano a ocasião perfeita para o país demonstrar sua supremacia
militar ao mundo. E com sucesso bastante discutível, diga-se. Já o retrato de
Bin Laden morto (que não foi divulgado) talvez fosse uma imagem menos icônica
para nós, mas poderia se converter num ícone para o mundo islâmico. Da maneira
deles, porque não é costume nesse mundo dar tanta importância a imagens, diferentemente
do que fazemos no Ocidente, com nossas camisetas estampando o rosto de Che
Guevara.
Estadão: Mas além da chance de demonstrar poderio militar, os
Estados Unidos deram uma guinada na sua política externa a partir de 2001,
ajustando o foco naquilo que George W. Bush batizou como "war on
terror". Outro encaminhamento seria possível?
Eric Hobsbawm: Eu diria que a política externa norte-americana,
depois de 2001, foi parcialmente orientada para a guerra ao terror, e
fundamentalmente orientada pela certeza de que o 11/9 trouxe para os EUA a
primeira grande oportunidade, depois do colapso soviético, de estabelecer uma
supremacia global, combinando poder político-econômico e poder militar.
Criou-se a situação propícia para espalhar e reforçar bases militares
americanas na Ásia central, ainda uma região muito ligada à Rússia. Sob esse
aspecto, houve uma confluência de objetivos – combate-se o inimigo
ampliando enormemente a presença militar norte-americana. Mas, sob outro
aspecto, esses objetivos conflitaram. A guerra no Iraque, que no fundo nada
tinha a ver com a Al-Qaida, consumiu atenção e uma enormidade de recursos dos
EUA, e ainda permitiu à organização liderada por Bin Laden criar bases não só
no Iraque, mas no Paquistão e extensões pelo Oriente Médio.
Estadão: Os Estados Unidos lançaram-se nessa campanha sabendo o
tamanho do inimigo?
Eric Hobsbawm: O perigo do terrorismo islâmico ficou exagerado, a
meu ver. Ele matou milhares de pessoas, é certo, mas o risco para a vida e a
sobrevivência da humanidade que ele possa representar é muito menor do que o
que se estima. Exemplo disso são as importantes mudanças que ocorreram neste
ano no mundo árabe, mudanças que nada devem ao terrorismo islâmico. E não só:
elas o deixaram à margem.
Agora, o mais duradouro efeito da war on terror, aliás, uma expressão que os
diplomatas norte-americanos finalmente estão abandonando, terá sido permitir
que os Estados Unidos revivessem a prática da tortura, bem como permitir que os
cidadãos fossem alvo de vigilância oficial. Isso, claro, sem falar das medidas
que fazem com que a vida das pessoas fique mais desconfortável, como ao viajar
de avião.
Estadão: Diante dos problemas econômicos que hoje afligem os
Estados Unidos, ainda sem um horizonte de recuperação à vista, o senhor diria
que seguimos em direção a um tempo de declínio da hegemonia norte-americana?
Eric Hobsbawm: Nós de fato caminhamos em direção à Era do Declínio
Americano. As guerras dos últimos dez anos demonstram como vem falhando a
tentativa norte-americana de consolidar sua solitária hegemonia mundial. Isso
porque o mundo hoje é politicamente pluralista, e não monopolista. Junto com
toda a região que alavancou a industrialização na passagem do século 19 para o
século 20, hoje a América assiste à mudança do centro de gravidade econômica do
Atlântico Norte para o Leste e o Sul.
Enquanto o Ocidente vive sua maior crise desde os anos 1930, a economia global
ainda assim continua a crescer, empurrada pela China e também pelos outros
Brics. Ainda assim, não devemos subestimar os Estados Unidos. Qualquer que
venha a ser a configuração do mundo no futuro, eles ainda se manterão como um
grande país e não apenas porque são a terceira população do planeta. Ainda vão
desfrutar, por um bom tempo, da notável acumulação científica que conseguiram
fazer, além de todo o soft power global representado por sua indústria
cultural, seus filmes, sua música, etc.
Estadão: Não só por desdobramentos político-militares do 11/9,
mas também pela emergência de novos atores no mundo globalizado, criam-se
situações bem desafiadoras. Por exemplo, o que o Ocidente sabe do Islã? E dos
países árabes que hoje se levantam contra seus regimes? Qual é o grau de
entendimento da China? Enfim, o Ocidente enfrenta dificuldades decorrentes de
uma certa superioridade cultural ou arrogância histórica?
Eric Hobsbawm: Ao longo de toda uma era de dominação, o Ocidente
não só assumiu que seus triunfos são maiores do que os de qualquer outra
civilização, e que suas conquistas são superiores, como também que não haveria
outro caminho a seguir. Portanto, ao Ocidente restaria unicamente ser imitado.
Quando aconteciam falhas nesse processo de imitação, isso só reforçava nosso
senso de superioridade cultural e arrogância histórica.
Assim, países consolidados em termos territoriais e políticos, monopolizando
autoridade e poder, olharam de cima para baixo para países que aparentemente
estavam falhando na busca de uma organização nas mesmas linhas. Países com
instituições democráticas liberais também olharam de cima para baixo para
países que não as tinham. Políticos do Ocidente passaram a pensar democracia
como uma espécie de contabilidade de cidadãos em termos de maiorias e minorias,
negando inclusive a essência histórica da democracia.
E os colonizadores europeus também se acharam no direito de olhar populações
locais de cima para baixo, subjugando-as ou até erradicando-as, mesmo quando
viam que aqueles modos de vida originais eram muito mais adequados ao meio
ambiente das colônias do que os modos de vida trazidos de fora. Tudo isso fez
com que o Ocidente realmente desenvolvesse essa dificuldade de entender e
apreciar avanços que não fossem os próprios.
Estadão: Essa superioridade do Ocidente pode mudar com a
emergência de uma potência como a China?
Eric Hobsbawm: Mas mesmo a China, que no passado remoto era tida como
uma civilização superior, foi subestimada por longo tempo. Só depois da 2ª
Guerra é que seus avanços em ciência e tecnologia começaram a ser reconhecidos.
E só recentemente historiadores têm levantado as extraordinárias contribuições
chinesas até o século 19.
Veja bem, ainda não sabemos em que medida a cultura, a língua e mesmo as
práticas espirituais da Pérsia, hoje Irã, enfim, em que medida aquele fraco e
frequentemente conquistado império influenciou uma grande parte da Ásia, do
Império Otomano até as fronteiras da China. Sabemos? Temos grande dificuldade
em compreender a natureza das sociedades nômades, bem como sua interação com
sociedades agrícolas assentadas, e hoje a falta dessa compreensão torna quase
impossível traduzir o que se passa em vastas áreas da África e da região do
Saara, por exemplo, no Sudão e na Somália.
A política internacional fica completamente perdida quando confrontada por
sociedades que rejeitam qualquer tipo de estado territorial ou poder superior
ao do clã ou da tribo, como no Afeganistão e nas terras altas do sudoeste
asiático. Hoje achamos que já sabemos muito sobre o Islã, sem nem sequer nos
darmos conta de que o radicalismo xiita dos aiatolás iranianos e o sonho de restauração
do califado por grupos sunitas não são expressões de um Islã tradicional, mas
adaptações modernistas, processadas o longo século 20, de uma religião
prismática e adaptável.
Estadão: Com todos esses exemplos de ''mundos'' que se estranham,
o senhor diria que a história corre o risco das distorções?
Eric Hobsbawn: Apesar de todos esses exemplos, sou forçado a
admitir que a arrogância histórica ocidental inevitavelmente se enfraquece,
exceto em alguns países, entre eles os EUA, cujo senso de identidade coletiva
ainda consiste na crença de sua própria superioridade. Nos últimos dez anos, a
história tomou outro curso, muito afetada pelas imigrações internacionais que
permitem a mulheres e homens de outras culturas virem para os
"nossos" países.
Dou um exemplo: hoje a informação municipal na região de Londres onde vivo está
disponível não apenas em inglês, mas em albanês, chinês, somali e urdu. A
questão preocupante é que, como reação a tudo isso, surge também uma xenofobia
de caráter populista, que se propaga até nas camadas mais educadas da
população. Mas, inegavelmente, numa cidade como Londres ou Nova York, onde a
presença dos imigrantes de várias partes é forte, existe hoje um reconhecimento
maior da diversidade do mundo do que se tinha no passado.
Turistas que buscam destinos na Ásia, África ou até mesmo no Caribe costumam
não entender a natureza das sociedades que cercam seus hotéis, mas jovens
mulheres e homens que hoje viajam, a trabalho ou estudos, para esses lugares,
já criam outra compreensão. Em resumo, apesar da expansão de xenofobia, há
motivos para otimismo porque a compreensão abrangente do nosso tempo complexo
requer mais do que conhecimento ou admiração por outras culturas. Requer
conhecimento, estudo e, não menos importante, imaginação.
Estadão: Imaginação?
Eric Hobsbawm: Sim, porque essa compreensão abrangente é frequentemente
dificultada pelo persistente hábito de políticos e generais passarem por cima
do passado. O Afeganistão é um clamoroso exemplo do que estou dizendo. Temo que
não seja o único.
Estadão: Na sua opinião, estaríamos atravessando um momento
regressivo da humanidade quando fundamentalismos religiosos impõem visões de
mundo e modos de vida?
Eric Hobsbawm: O que vem a ser um momento regressivo? Esta é a pergunta que faço.
Não acredito que nossa civilização esteja encarando séculos de regressão como
ocorreu na Europa Ocidental depois da queda do Império Romano. Por outro lado,
devemos abandonar a antiga crença de que o progresso moral e político seja tão
inevitável quanto o progresso científico, técnico e material. Essa crença tinha
alguma base no século 19.
Hoje o problema real que se coloca, o maior deles, é que o poder do progresso
material e tecnocientífico, baseado em crescente e acelerado crescimento
econômico, num sistema capitalista sem controle, gera uma crise global de meio
ambiente que coloca a humanidade em risco. E, à falta de uma entidade
internacional efetiva no plano da tomada de decisão, nem o conhecimento
consolidado do que fazer, nem o desejo político de governos nacionais de fazer
alguma coisa estão presentes.
Esse vazio decisório e de ação pode, sim, levar o nosso século para um momento
regressivo. E certamente isso tem a ver com aquele "sentido de
desorientação" que discutimos no início da entrevista.
Estadão: Apoiado na sua longa trajetória acadêmica, que
conselhos o senhor daria aos jovens historiadores de hoje?
Eric Hobsbawn: Hoje pesquisar e escrever a história são atividades
fundamentais, e a missão mais importante dos historiadores é combater mitos
ideológicos, boa parte deles de feitio nacionalista e religioso. Combater mitos
para substituí-los justamente por história, com o apoio e o estímulo de muitos
governos, inclusive. Se eu fosse jovem o suficiente, gostaria de participar de
um excitante projeto interdisciplinar que recorresse à moderna arqueologia e às
técnicas de DNA para compor uma história global do desenvolvimento humano,
desde quando os primeiros Homo sapiens tenham aparecido na África oriental e
como elas se espalharam pelo globo.
Agora, se eu fosse um jovem historiador latino-americano, daí eu poderia ser
tentado a investigar o impacto do meu continente sobre o resto do mundo. Isso,
desde 1492, na era dos descobrimentos, passando pela contribuição material
desse continente a tantos países, com metais preciosos, alimentos e remédios,
até o efeito da América Latina sobre a cultura moderna e a compreensão do
mundo, influenciando intelectuais como Montaigne, Humboldt, Darwin. E,
evidentemente, eu pesquisaria a riqueza musical do continente, fosse eu um
latino-americano. Isso é tudo o que eu quero dizer.
A Roda Bélica da História, por Hobsbawn
1ª Guerra, o banho de sangue
O tempo histórico era outro, avalia Hobsbawm. O mundo ficara quase um século
sem um grande conflito e o conceito de "paz" fez-se sinônimo de
"antes de 1914", ano em que Francisco Ferdinando, da Áustria, foi
morto. Detonava-se o conflito que iria sangrar a Europa.
2ª Guerra, o mistério
O mundo sabia o que era uma guerra maciça, mas não uma guerra global. Eis a
amarga contribuição da 2ª Guerra, conflito sem limites. Hobsbawm indaga: por
que Hitler, esgotado na Rússia, declarou guerra aos EUA, permitindo que se
associassem à Grã-Bretanha?
Guerra Fria, o absurdo
Como explicar 40 anos de tensão pela crença de que o planeta poderia explodir a
qualquer momento e, contra a destruição total, só haveria a chance da dissuasão
mútua? Para Hobsbawm, a Guerra Fria dos tempos de Kruchev carregou a
inconclusão da Era da Catástrofe.
Guerra do Golfo, o lucro
Ao findar da Guerra Fria, lembra o historiador, a hegemonia econômica
norte-americana já estava abalada. E sua superioridade militar teve que ser
financiada por apoiadores de Washington. Na guerra contra o Iraque, em 1991, a
potência presidida por Bush pai realizou lucros.
Fonte: O Estado de S. Paulo